Anjo Mortal

 

 

Mataste-me naquela festa,

onde te encontrei passados uns anos.

Naquele momento em que os meus olhos

 pousaram em ti e sorri,

tu retribuíste-me um sorriso sincero,

mas os teus olhos traziam amargura.

Nesse exacto momento morri.

Recordava-me de ti com um sorriso aberto,

os teus olhos vibravam ao sabor dos teus cabelos

eras eléctrica como uma formiguinha

que tinha encontrado um doce.

Via-te como um anjo alegre

com quem tinha partilhado alguns bons momentos,

que retive saudosamente no meu baú da memória.

Mas naquela noite tudo mudou.

Mataste-me sem saberes,

espetaste-me uma faca no coração

e entristeceste-me as entranhas.

Nesse momento as tuas imagens idílicas

que se encontravam no baú

entraram em combustão e carbonizaram-se.

A cor do teu cabelo,

o teu cheiro,

o teu rosto e todos os teus sorrisos,

deram lugar a uma imagem triste e melancólica.

Morri naquele exacto momento

em que me apercebi que o tempo tinha passado por nós,

cobrindo a nossa curta e breve relação,

que a vida tinha sido tão dura para ti

como foi para mim,

que tu tinhas amadurecido (quiçá envelhecido)

e já não eras o anjo alegre e inocente

que jazia no meu baú das memórias.

O anjo do baú deu lugar a um ser humano,

as imagens alegres transfiguraram-se em dias de tempestade,

da felicidade para a agonia,

a esperança virou-se para o desespero,

o sonho diluiu-se com tudo o resto.

Morri exactamente por isso.

Ao perceber que já não poderíamos voltar a repetir o passado,

que já não éramos iguais,

que a vida separou-nos cruelmente.

E tu mataste-me

ao mostrar que afinal não eras um anjo,

mas um simples ser humano,

mortal,

como todos nós.